segunda-feira, 2 de abril de 2012

Por Wilson Barbosa

 
Reflexão Filosófica sob Certificação por Competência nos Cursos Técnicos

 PERSPECTIVA INTERDISCIPLINAR

Em artigo que publiquei ainda no ano de 1997 para a Revista  Filosofia- Ciência & Vida, Editora Escala, edição especial daquele mês[1], o assunto foi tratar “O Iluminismo no Século XXI”. Considerei como principal protagonista para o texto, Jean-Jacques Rousseau - Filósofo Iluminista do Século XVIII.
Agora, nesse artigo, para fomentar o intrigado raciocínio acerca da Certificação por Competência dentro de uma perspectiva também da interdisciplinaridade, retomo outra vez o Filósofo, a partir da base de seu pensamento efervescente em prol da necessidade de preparar o educando para o futuro. Isso porque, segundo a perspectiva do Pensador em sua obra O Emílio[2], o aluno tem uma enorme potencialidade não aproveitada imediatamente.
Praticamente em toda a história da Filosofia houve pensadores que debruçaram contra toda forma de opressão, do poder autoritário que subjuga o outro para o domínio próprio; do maniqueísmo assassino que usurpa o direito à liberdade. Vários fenômenos dessa natureza tem pano de fundo no momento da história quando alguém cercou um lugar e disse: “isto é meu”. Esse é também o início da privatização da propriedade! Mas é também assunto para outro artigo.
Retomando o tema, nos dias atuais, pouco ou nada se compreende a respeito do Ócio em seu sentido legítimo,  confundindo-o quase sempre com o ócio da aristocracia, daí o interesse em envolver essa significação aos aspectos do potencial estanque do educando que, especificamente, na modalidade de ensino dos cursos técnicos, o qual, conforme legislação vigente pode ser diminuído em termos de tempo da duração do curso por meio da Certificação por Competência, algo devidamente amparado pelo Decreto 5.154[3] de Julho de 2004, além de outras possibilidades que também encaminham à conclusão de cursos em menor tempo, desde que diretamente relacionados com o perfil profissional de conclusão da respectiva qualificação.
Aproveitamento Imediato: Certificação por Competência
É presumido que há entranhados no entendimento do que diz o Decreto, que a Certificação por Competência seja mais uma manobra política que o governo instaura para oferecer uma resposta rápida à demanda necessária para suprimento da falta de mão de obra especializada para o trabalho, algo possível, mas não reduz a isso.
A verdade que precisa ser entendida é que não é mais possível tolerar o não aproveitamento de experiências profissionais anteriores que a pessoa, jovem ou adulto, adquire no decorrer da vida. Pesquisas nesse sentido demonstram que não são poucas.
A Certificação por Competência é um instrumento legal que tem por objetivo ampliar as possibilidades do jovem em utilizar dos seus conhecimentos profissionais a priori a sua formação técnica, sem prejuízo da qualidade, por isso, a aferição do saber adquirido em situações e experiências anteriores faculta-lhe o direito de conclusão abreviada, sem contar com as possibilidades, quando o curso for estruturado e organizado em etapas com terminalidade - saídas intermediárias que possibilitam a obtenção de certificados de qualificação para o trabalho, após conclusão com aproveitamento. Na prática, é uma legitimação em essência aos ensaios pedagógicos rousserianos que torna o aluno auto-suficiente.
Mas ao contextualizar para a realidade do Século XXI, é sabido que é prematuro orientar as escolas que simplesmente alterem seus projetos pedagógicos com efeito de anuência a esse aproveitamento, porque as próprias normatizações sobre o assunto ainda são pouco debatidas e devidamente elencadas, justificando esforços para que haja sólidos estudos que fortaleçam os parâmetros de metodologias e avaliações para os diversos perfis profissionais, uma vez que a responsabilidade passa a ser da escola que avalia, reconhece e certifica o aluno.
Superada a questão, com a saída intermediária, o aluno logra êxito em se tratando da rápida inserção no trabalho, permitindo o curso de módulos com conclusão, fazendo jus ao final dos módulos, à diplomação. Outro aspecto positivo é que com a iniciativa dessa modalidade de certificação fica garantido o segmento de estudos em nível superior, e mais, com pouco ou nenhum comprometimento no orçamento familiar, uma vez que oportuniza ao técnico a remuneração condigna pelo seu ofício porque ele estará apto a inserir-se no mundo do trabalho[4].
Na perspectiva filosófica, a profissionalização técnica por meio do imediato aproveitamento dos talentos já adquiridos anteriormente pela pessoa e toda a estrutura organizacional que envolve essa modalidade de qualificação, ganha dimensões que até poucos anos era algo inimaginável no cenário brasileiro, existindo apenas nas ilusões e na utopia de alguns pensadores interessados em ciências sociais.
O Ócio como Expressão da Liberdade
O Ócio na perspectiva proposta, é algo decorrente da boa utilização do tempo, da otimização de todos os recursos disponíveis para a consecução dos trabalhos, da produtividade que seja resultante da necessidade, algo que é idéia embrionária do empreendedorismo utilitário. Esse empreendedorismo utilitário tem alguns aspectos que assemelham o modo toyotista o qual o trabalhador é consciente de todo o processo da produção e nunca relegado ao trabalho segmentado onde jamais há a oportunidade de conhecer todas as dimensões da produção industrial; dos projetos que resultam em comercialização de bens; da participação nos lucros.
Não obstante, várias vezes no meio profissional o trabalhador conta com um tipo de ambiente de trabalho hostil, inóspito ou insalubre agravando sensivelmente a sua condição física e intelectual, criando uma situação de tédio e muitas vezes apatia por ações repetitivas e rotineiras, que não oferecem  a oportunidade de criar ou pensar o processo decisório. É contrariando essa formação absurda e intolerável que o modelo de formação técnica para o jovem brasileiro vem ganhando novo espaço no cenário das empresas internas e em outros países. É a refutação da projeção desse caos que a concepção da educação contemporânea, com respaldo nas Diretrizes da Educação Nacional, contrapõe o cerceamento intelectual da pessoa que se impõe com a hermenêutica travestida de “foco na produtividade”.
O fato real é que o aprendizado que liberta o ser humano para a criatividade, para o desempenho de tarefas cuja participação do trabalhador, seja em qual etapa for da criação, constitui algo fundamental para o melhor aproveitamento dos processos e produtos e possibilita abrir espaço para atividades que são significativas e cada vez mais valorizadas em termos de formação humana: atividades tais como tempo livre para a família, tempo para os filhos, para os cuidados com a saúde, tempo para a esposa, para o exercício físico ou para a reflexão intelectual ou espiritual. A isso damos o nome vida! É dessa maneira que atrelamos a significação ao Ócio decente e pretendido pela Estética da Sensibilidade- braço da Filosofia prática, a qual algumas empresas e grandes corporações já se deram conta da necessidade e dos resultados dessa prática.
A Estética da Sensibilidade é reflexo direto à contraposição a hegemonia dos padrões dos iguais em que a beleza do saber fazer é diluída no saber repetir, próprio do trabalho servil e escravatório.
Esses pressupostos estão internamente presentes no novo paradigma educacional do Brasil e fortemente arraigados na construção do texto das     Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Técnico, entretanto, pouco debatido no cotidiano até mesmo das escolas que consagram novas tecnologias profissionalizantes. Tecnologias essas, que precisa ter por principal objetivo facilitar o trabalho humano e oferecer novas metodologias para o melhor aproveitamento do tempo e melhorar a qualidade de vida.
Essa dimensão existe em potencial na modalidade de Ensino Técnico e, por consequência, no modelo pedagógico que contempla a Certificação por Competência, bem assim, também o reconhecimento do autodidatismo, da criatividade, da invencionice, da celebração de aferição de conhecimentos do estudante; do aproveitamento de disciplina, do exame de proficiência, da possibilidade de matrícula em série, módulos, ciclos, etapas ou em outra forma de organização pedagógica, sempre sem prejuízo para o aluno.
Essa reflexão pelo prisma da Filosofia é porque enquanto as ciências exatas, em geral, são particulares, ou seja, segmenta aspectos da realidade em detrimento de outras possibilidades de conhecimento, como por exemplo, através da reflexão abstrata, a Filosofia enxerga o conjunto e postula uma visão globalizante examinando os problemas também do todo para as partes, formando em sua totalidade uma análise rigorosa da realidade, pois na sua equação produz um elo de intercessão entre as partes que compõe o objeto.
Enquanto Filosofia, os objetos de interesse parte da natureza ao Ser. O Ser é equivalente a exprimir o fato de que determinada coisa existe, portanto, o objeto de seu interesse, é tudo! Assim, a Filosofia relaciona com o contexto da educação pretendida e é a maior referência do pretenso entendimento e exercício da interdisciplinaridade na educação contemporânea, mas não necessariamente a melhor, considerando se isso pode mesmo ser mensurado.


Profº Wilson Barbosa
Técnico em Assuntos Educacionais
IFTO - Instituto Federal do Tocantins
Campus Porto Nacional



[1] ALVES, W. B. O Iluminismo no Século XXI. Filosofia- Ciência & Vida ESPECIAL, Ed. Escala, 2007, Edição nº 5.

[2] Rousseau faz referência à criança e sua preparação para o futuro, no momento certo da vida.
[3]  http://www.planalto.gov.br/ccivil 03/ato2004-2006/2004/decreto/d5154.htm

[4]  http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/pceb20_05.pdf

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Por Wilson Alves

Uma Crítica às Diretrizes Ministeriais para a Educação Profissional no que Concerne ao Estágio Supervisionado

Com a expansão da Educação Profissional no Brasil, cujos objetivos fazem inferência a vários fatores imprescindíveis para a construção do conhecimento, para a promoção da cidadania, a emancipação do indivíduo e a formação para o trabalho, os apontamentos desde os Pareceres emanados pelo Ministério da Educação até os Avisos Ministeriais em geral, os quais tratam dos ditames envoltos a elementos precipuamente ligado as demandas de alocação do jovem e do adulto no mercado atual, faz-se preciso que as diretrizes que regulamentam os mais variados cursos oferecidos pelas instituições competentes nessa modalidade de ensino, em especial, os Institutos Federais de Educação Ciência e Tecnologia, componham nas discussões e Planejamentos de Desenvolvimento Institucional, no Projeto Pedagógico da escola, uma abertura dialética para contemplar questões que vão além da visão da exigência de formação por área de competência, e ainda, elementos que transcendam a técnica, propriamente dito.
Dois avisos precisam estar presentes enquanto premissa básica para a boa formação do estagiário, as quais não estão claramente contempladas no conjunto das ações adotadas nos eixos norteadores legais.
A princípio, todos os esforços no sentido de alocar os alunos em empresas compatíveis com a formação do aluno, precisam antes, de um mapeamento singular junto aos pretensos estagiários, quando dos aspectos relacionado a malha intelectiva do aluno de modo que isso venha a significar uma leitura pormenorizada e criteriosa das suas habilidades extra-sala, das competências adquiridas na vida e no trabalho, mesmo que seja fruto do trabalho precoce que lamentavelmente ainda é realidade no  nosso país, bem como da aptidão imanente que a pessoa já trás em si devido a aspectos vocacionais, filosóficos ou ideológicos, compatibilizando com essa ou aquela empresa, instituição, setor de alocação.
 A idéia de aproximar a teoria à prática no tocante ao ensino técnico e educação em geral, é um avanço nos ideais da formação educacional brasileira, entretanto, a questão vai além. Com a presente tendência de alto nível de exigência das empresas que competem em um mercado cada vez mais exigente, espera-se na contrapartida da formação técnica estagiários altamente capacitados e, sobretudo, flexíveis para transitarem entre um posto de trabalho e outro, além da necessária capacidade de tomada de decisão no momento certo, na situação adequada. O problema ganha dimensões se não houver um trabalho de reconhecimento de talentos de modo a aferir um mínimo de compatibilidade entre o aluno A com a empresa X. Isso quer dizer na prática que há um risco iminente de ‘queima de talentos’ quando os alunos da formação técnica passam a ser vistos como números e não pessoas, assim, os responsáveis pela formação não vislumbram a subjetividade singular imposta pela própria natureza e tendem a não detectar  eventuais situações adversas ou irreconhecíveis quanto a lógica e a forma.
Buscar uma solução para esse problema parece algo possível se olharmos a gama de profissionais envolvidos no processo formativo do aluno, de modo particular, nas instituições supra citadas. O Pedagogo ou Orientador Educacional, o Assistente Social, o Assistente de Aluno, o Psicólogo e o Técnico em Assuntos Educacionais são pálidos exemplos para essa possibilidade.  A soma de talentos desses profissionais pode oferecer um leque de oportunidades para o reconhecimento de ações que minimizem riscos de estágios infrutíferos que só corroboram para possíveis frustrações e desencorajamento para a vida profissional do aluno, além do caráter de fracasso que será forjado à instituição que teoricamente tenha oferecido a formação.
A fragilidade é estancada quando ações no sentido de ajustar o que vem sendo discutido em termos de teoria x prática ganha a práxis de levar o aluno em direção às sensações – termo técnico para caracterizar o ajuste de conduta prática do aluno em face a execução do trabalho que envolve elementos práticos da especialidade da sua formação.
Essa discussão só faz sentido quando despertar o interesse da legislação a qual tem o poder legal para celar limítrofes e obrigatoriedades que evitem margem para interpretações antagônicas e erros de execução. A meu ver, é preciso partir de publicações legais para direcionar as instituições de ensino e encorajá-las a atuar no que é exigida pela Lei maior da Educação Nacional, a LDB. Esta, insistente para que sejam observadas todas as medidas de formação integral do aluno.
Enquanto sugestão, ofereço um roteiro sem igual que fomentou as idéias primárias que deram origem a essa crítica: a antiga PL 1.603/96; a Lei 9.394/96; Decreto 2.208/97; Decreto 5.154/04 e, sobretudo, o Parecer do CNE/CEB Nº 16/99.
Um afetuoso abraço a todos,

Profº Wilson Barbosa
Técnico em Assuntos Educacionais
IFTO - Instituto Federal do Tocantins
Campus Porto Nacional


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Por Wilson Alves

Cursos Técnicos Médio e Pós-Médio: Novos Rumos, Nova História.



Os cursos técnicos, em geral, surgiram no Brasil a fim de atender uma demanda do mercado e do capital, tão somente preocupado em responder aos anseios da elite detentora da relação de  poder nas cidades. Disso depreende-se que o formato desse ensino de caráter vinclulado a operacionalização não era propositadamente endereçado àqueles que vinham das classes privilegiadas, antes, àqueles filhos de trabalhadores pobres, sem esperança no futuro, de alma ferida e de caráter forjado pelo impulso do aliciamento psicológico o qual os tornaram cônscios de que os seus papéis era oferecer o trabalho da produção em série e segmentada para alimentar os propósitos e a ambição das castas dominantes.
A imblemática de ensino técnico fortemente marcada pela dicotomia entre ensino propedêutico voltado exlusivamente às artes, a cultura e ao universo intelectual e político, foi absolvida por um novo ethos cultural que se sedimenta em valores que, nos dias atuais, ganham dimensões totalmente inovadoras e perspectivas antes inimagináveis. Precedido por uma economia globalizante e uma política democrática dos saberes práticos, observca-se a aproximação entre a teoria e a prática, tendo por base referencial, uma ação a qual admite que ambas não concorrem entre si, mas complementam-se na construção do conhecimento.

Atualmente no Brasil, o ensino técnico profissionalizante em nível médio, pós-médio e concomitante constitui em marco revolucionário e histórico ora implantado especialmente nos Institutos Federais de Educação Ciência e Tecnologia, de modo a reparar parte de uma dívida desde os tempos remotos quando a retalhação e a segregação sob essa modalidade de ensino imperava, além disso, nos limítrofes do início do século XXI essa modalidade de educação fomenta a  mão de obra qualificada para atender as necessidades de produção estritamente relacionada a economia, a política, a indústria, enfim, a vida social como um todo. 

Por conseguinte, o fato de que a educação técnica tem entre os seus objetivos a manutenção do mercado, é também agregado entre os valores que a compõe, a formação crítico-social do profissional, entendendo por isso,  a presença de valores que sustentam o processo de autonomia da pessoa humana, resguardando-a de toda e qualquer forma de prosetilismo dominante de classes opressoras. Assim, a educação técnica sustenta em seu eixo norteador valores que consagram o processo de formação relacionando-o a uma co-participação na formação da política de desenvolvimento sustentável, algo que está em franco questionamento e discussão nas mais distintas forças sociais, marcando o final do século XX e agora o início do século XXI como principais responsáveis pelos efeitos positivos e/ou negativos da produção industrial. 

Com tudo isso, há pouca ou nenhuma diferença entre o ensino propedêutico voltado às profissões revestidas da hermenêutica, comparado àquelas que contróem, criam, renovam, inovam ou modificam o processo de produção: as Profissões Técnicas. Essa última, transforma-se em instrumentos que insere as pessoas no mercado de trabalho e na vida social e política de seu tempo, pois, a produção contemporânea não é entendida no sentido da dicotomia segmentada do passado, mas é enriquecida com a evolução do status da consciência global que responsabiliza o processo de criação à representação simbólica das demandas sociais as quais ele mesmo ( o técnico) é consumidor.
Com o viés da proposta do pensamento crítico, a formação técnica de nível médio ou pós médio constitui um manancial de operações lógicas humanizantes, distante do cartesianismo representado e arquivado nas enciclopédias do Brasil do século passado.

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Wilson Barbosa
Técnico em Assuntos Educacionais
IFTO- Instituto Federal do Tocantins 
Campus Porto Nacional.

terça-feira, 1 de março de 2011

Por Wilson Alves


Um pouco Sobre Mediação Pedagógica

Ao propor a mediação na EAD, o professor, dentro do entendimento de “quem é o aluno virtual”, precisa estar atento a maturação singular do aluno no dia a dia do curso. Com atenção às peculiaridades próprias do aluno, torna-se possível, por exemplo, pensar o processo de uma Avaliação Diagnóstica, cuja característica é a sua realização durante o processo de ensino-aprendizagem, além de ser melhor aproveitada, quando o resultado (feedback) para o aluno é iminente, logrando assim, êxito no que tange a possíveis correções dos conteúdos tratados. PRADO (2006) faz menção a essa necessidade: “Esta sensibilidade do professor, atento para conhecer o aluno virtual é importante para o re-planejamento de suas ações, balizando as necessidades dos alunos com os objetivos educacionais que pretende atingir”. OLIVEIRA (2006), por outro lado, atribui destaque às Bases Epistemológicas da Avaliação na Educação. É importante ressaltar que os dados epistemológicos encontrados no perfil do aluno implicam necessariamente ao seu modo de aprender e apreender as coisas. Assim, reafirma a necessidade do professor em conhecer a subjetividade do aluno diuturnamente.
De antemão, antes mesmo do processo de mediação propriamente dito, é fundamental que o professor questione o quanto está preparado para reconhecer a maturação do aluno e, sobretudo, reconhecer os pontos limítrofes da sua expressividade em ambientes colaborativos de aprendizagem, reduzindo ou eliminando a possibilidade de, involuntariamente, iludir-se em uma avaliação talvez inócua, porém, superficial, rasa e, quem sabe, até irresponsável.
Ao ler atentamente o texto de PRADO (2006), percebe-se que os problemas enfrentados no exterior, não são tão diferentes dos problemas enfrentados no Brasil. O trecho a seguir demonstra essa similaridade: “Em primeiro lugar e acima de tudo, está claro que, para trabalhar virtualmente, o aluno precisa ter acesso a um computador e a um modem ou conexão de alta velocidade e saber usá-los (...) é importante lembrar que nem todos os alunos têm acesso a conexões de alta velocidade. (...) terão também de lidar com questões de privacidade e confidencialidade, conflitos com o horário de trabalho, direitos autorais e propriedade intelectual.
No texto, PRADO (apud Brookfield, 1987, p. 1) segue: “Ser alguém que pensa criticamente é parte daquilo que forma a pessoa que se desenvolve”- característica essa que deve estar presente também no aluno AVA.
Entretanto, aí está um ponto a ser observado, especialmente na realidade brasileira. Dos cursos de capacitação/aperfeiçoamento e até pós-graduação, quando direcionado especificamente a professores, um percentual muito grande é de professores que estão na rede de ensino  a vários anos, dos quais existe um subgrupo que compõe outro grande percentual de profissionais que estão acima dos 40 anos de idade e que, por conseqüência, não foram educados pedagogicamente com a participação das TIC. O resultado disso é que ao ingressarem nos cursos EAD preocupam-se e se detêm com o aprendizado das tecnologias, com o uso correto do computador, por exemplo, que intelectivamente não conseguem pensar criticamente como o fariam na educação presencial. Essa é uma generalização local, goiana, pontual à realidade do Estado de Goiás, onde experenciamos o fato. É uma característica que observamos no dia a dia em cursos simples como no curso de Introdução a Educação Digital do PROINFO, oferecido pelos NTEs em diversas cidades. 

Assim, é fundamental que o professor diante de realidades diferentes, isto é, de faixa etárias mistas, de alunos com e sem cultura digital, conheça o perfil singular do aluno e alie-se a ele de modo a tranqüilizá-lo quando preciso, encorajá-lo quando preciso, ser junto, próximo, presente virtualmente  de modo a ser quase imperceptível a distância física que os separa. Prado (2006, p. 02) testifica a necessidade dessa proximidade: Esta abordagem - o estar junto virtual - tem norteado os grupos de docentes e pesquisadores no desenvolvimento de cursos de formação de professores para o uso pedagógico da informática. Estes cursos utilizam o ambiente virtual de suporte para o processo de ensino e aprendizagem, como por exemplo, TelEduc, Moodle, e-Proinfo entre outros, que se constituem por um conjunto de ferramentas, as quais viabilizam a organização e o gerenciamento do curso, bem como a comunicação entre os participantes.

 É elementar que esses ditames só se aplicam quando previamente se tem os objetivos pré-definidos para que não se caia em um verdadeiro sofismo: o professor  fingir que se ensina e o aluno fingir que aprende. Ou seja, é preciso observar qualitativamente o planejamento do dia, da semana, do mês, do curso.
Para finalizar, deixo testemunhos de alunas do curso acima referido, cuja identidade, local, nome, serão preservados por questões éticas, entretanto, eventuais erros gramaticais, de digitação ou concordância serão registrados, pois estes fazem parte da realidade também vivenciada quando escrevem no AVA.

Prof. Wilson Barbosa
- Filósofo Clínico 
- Especialista em Tecnologias na Educação


(16/12/2010)
Anotação aluno: No decorrer do curso aprendi a ultilizar o writer para desenvolver e formatar textos por meio dos diversos recursos oferecidos pelo aplicativo. Aprendi a fazer boletim escolar e planilhas orçamentárias usando o calc, bem como, a montar apresentações no impress. A dificuldade encontrada foi apenas na utilização do impress no que se refere a animações, porém tive o auxilio do professor para romper a dificuldade. No mais posso dizer que tive um ótimo aproveitamento porque aprendi a usar todos os aplicativos propostos.

(23/12/2010)
Anotação aluno: Prof.: Wilson Aluna: xxxxx. xxxx, 20 de Dezembro de 2010 Atividade Reflexiva Aprendi que a tecnologia pode somar e ajudar nas atividades que hoje executo com melhorias no tratamento das crianças e no relacionamento interpessoal, pois realizarei pesquisas, tabelas e outras funções que não conseguia executar anteriormente, pois não tinha afinidade com computadores. As dificuldades foram inúmeras conforme comentado devido não ter contato com computadores o simples ligar da maquina já se tornava uma barreira, mas com as informações recebidas e com o tempo tenho maior intimidade com esse novo ambiente de trabalho e as barreiras e medos foram rompidas. O aproveitamento foi ótimo devido o aprendizado que tive e a participação foi na medida do possível dentro de minhas limitações. Obrigado pela oportunidade em poder aprender e fazer novos amigos.


 



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Por Wilson Alves



Resumo
Este Artigo propõe tratar a questão da subjetividade do aluno e do professor no ambiente colaborativo de aprendizagem; os limites de entendimento que delineiam o conjunto de operações simbólicas e epistemológicas no contexto do ensino-aprendizagem. Procura aprofundar sob o estudo da semiose, característica que diz respeito ao quanto da mensagem segue do professor para o aluno no momento da comunicação, tratando especificamente, nesse texto, da comunicação assíncrona, em virtude de que esta não contata com o tempo real.

Palavras Chaves: Educação à distância, Operação simbólica, Semiose, Comunicação.


A COMUNICAÇÃO E O ENTENDIMENTO DA PROPOSIÇÃO NO 

AMBIENTE VIRTUAL DE ENSINO


Nesse momento em que o país vivencia a expansão da EAD na mesma velocidade em que a demanda por capacitação e necessidade de mão de obra especializada cresce vertiginosamente, cresce também a oferta de cursos a fim de atender o mercado de trabalho e a sociedade de um modo geral, e ganha cada vez mais credibilidade nas corporações, universidades e empresas. Assim, as instituições de ensino públicas e privadas adéquam-se nessa área cada vez mais, afinando a sua linguagem às reais necessidades desse público, cujos efeitos começam a aparecer no Brasil. Um exemplo é a aprovação do primeiro Mestrado Profissional, conforme ofício Nr. 031_06/2010/CTC/CAAIII/CGAA/DAV/CAPES [1]
Amparadas pelo Ministério da Educação que regulamenta os cursos à distância, através das bases legais as quais foram estabelecidas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei n.º 9394, de 20 de dezembro de 1996, pelo Decreto n.º 2494, de 10 de fevereiro de 1998, publicado no D.O.U. DE 11/02/98; através do Decreto n.º 2561, de 27 de abril de 1998, publicado no D.O.U. de 28/04/98 e pela Portaria Ministerial nº 301, de 07 de abril de 1998, publicada no D.O.U. de 09/04/98 [2], cujos conteúdos voltam a um esforço rigoroso para atender com qualidade ao aluno que opta por um curso em ambiente virtual, faz crescer na conjuntura desses esforços a necessidade de constantes estudos por parte de especialistas para dar conta da variedade de questões que estão em evidência, a saber, que constituem necessidade de objetos de discussões acadêmicas.

Um Ponto de Atenção
         
          De modo particular, a comunicação entre o professor e o aluno estabelecida nos ambientes virtuais de aprendizagem sofre alterações quando comparado com a linguagem estabelecida dentro da sala de aula conforme a conhecemos e a temos por tradicional. Em função de que a logística apresentada em uma plataforma virtual de ensino contém momentos assíncronos de educação[3] essa alteração é ainda mais acentuada, tendo em vista os recursos de multimídia utilizados para essa comunicação. A partir dessa complexidade, a natureza da comunicação que é estabelecida entre as pessoas: professor x aluno, sem contar com os mediadores que são envolvidos no processo (orientador acadêmico, tutor presencial, tutor a distância e coordenador de curso) sugere de antemão, que eventuais perdas de conteúdo da comunicação podem acontecer por meio de um processo natural da linguagem humana. As semioses são distintas de indivíduo para indivíduo, entendendo por isso que cada ser humano em sua riqueza singular exterioriza o ato comunicacional de forma completamente distinta, resguardadas as devidas proporções de semelhanças naturais (capacidade comum da linguagem oral, escrita, gesticular, outras), assim, somos levados a compreender que as bases do conteúdo pedagógico nos ambientes virtuais precisam suportar várias modalidades de expressão do aluno (hipertextos, WWW, web log, outros), portanto, as variáveis simples e complexas podem encontrar métodos eficazes para o processo comunicativo.

Uma Comunicação Profícua em Ambientes Virtuais
        
          A plataforma virtual moodle gratuita e democrática, exaustivamente utilizada por escolas e instituições públicas e privadas já citadas, tem como veículo de postagem do ato comunicativo o fórum (assíncrono), o material do aluno (assíncrono), o material do professor (assíncrono), a chat (síncrono) como algumas das ferramentas para desenvolvimento de cursos. A título de exemplo, no Estado de Goiás, a UFG – Universidade Federal de Goiás, e também no Distrito Federal, a UNB – Universidade de Brasília, oferecem cursos de graduação e pós-graduação à distância, através do programa UAB - Universidade Aberta do Brasil. O sistema Universidade Aberta do Brasil é um programa instituído pelo MEC e executado em regime de cooperação técnica com os municípios, cujo objetivo é capacitar gratuitamente os professores da educação básica em cursos de graduação, pós-graduação, extensão e aperfeiçoamento. O Pólo de Apoio Presencial é uma unidade operacional do Sistema Universidade Aberta do Brasil para o desenvolvimento descentralizado das atividades pedagógicas e administrativas relativas aos cursos e programas ofertados a distância pelas instituições públicas de ensino superior. Neste ambiente, que conta com salas de aulas, sala de coordenação, auditório e laboratório de informática com computadores conectados a internet banda larga[4] disponíveis para os alunos, acontece os encontros presenciais e as atividades de tutoria.
           Os tutores presenciais da UNB/UFG auxiliam os cursistas quanto ao uso correto das mídias; ao suporte técnico de aprendizagem da plataforma, além de intermediar problemas de ordem pedagógica junto à coordenação. A conjuntura orgânica própria para suportar o desenvolvimento das atividades, por mais equipada do ponto de vista tecnológico em que se encontra, não esgota as necessidades latentes que encontramos no aluno em formação. As circunstâncias que norteiam o estado fenomenológico da pessoa transcendem as expectativas do ambiente virtual, extrapolando para as diretrizes que remontam os dados subjetivos da psique humana.
  Assim, capacidades singulares que deveriam ser “aproveitadas” pelo professor podem se perder na técnica, no perigo do rigor de espectro da realidade, no cyber espaço. Daí a necessidade de ininterrupta formação e, por isso, a menção a Decretos e Leis que regulamentam a modalidade de ensino em EAD. Com esforços unificados entre Governo Federal, Estados e Municípios há possibilidade concreta do Brasil abandonar definitivamente as margens ínfimas de país subdesenvolvido em matéria de educação e compor um status de  supremacia, de país que galga patamares ajustados à demanda do desenvolvimento educacional que seja efetivamente comprometido com a cidadania, a democracia e a maestria própria do conhecimento formal.


   Prof. Wilson Barbosa
- Filósofo Clínico 
- Especialista em Tecnologias na Educação
- Prof. Formador do NTE_Anápolis


[1] Fonte: http://www.profmat-sbm.org.br/docs/OficioCTC.pdf
[2] Uma multimídia é um conjunto de mídias digitais criadas e adaptadas para funcionar simultaneamente através de interação, num determinado modo pré-programado. As possibilidades de usos são muito extensas, devido à sua multiplicidade de formatos e de programação. Fonte: http://www.foton.com.br/criacao.php?id=multimidias&sid=ferramentas
[3] Momento de aprendizado onde não há a presença em tempo real dos agentes envolvidos.
[4] Os dados correspondem especificamente ao Pólo-UAB-Anápolis-GO.


segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Por Wilson Alves

HOMENAGEM PÓSTUMA
DOM MANOEL PESTANA FILHO
27/04/1928 A 08/01/2011

REPUBLICAÇÃO ESPECIAL


Em dezembro de 2005 o Filósofo Clínico Wilson Barbosa, então membro da Comissão Nacional de Avaliação de Estágios Clínicos, entrevistou para o site do Instituto Packter-POA-RS, Dom Manoel Pestana Filho, Bispo Emérito de Anápolis. Intelectual, poliglota e amante assíduo da leitura. Entre os idiomas que domina, está o italiano, o latim, o espanhol e o francês. Altamente fluente em inglês, sem contar com os seus conhecimentos do grego e do alemão. Em 2005 já era também um estudioso da Filosofia Clínica.
Partes da gravação que não tiveram qualidade suficiente para a transcrição (cerca de 5%) foram suprimidas.



ENTREVISTA COM V. Ex.º Rev. DOM MANOEL PESTANA FILHO
BISPO EMÉRITO DE ANÁPOLIS-GO

Wilson Barbosa - Boa tarde D. Manoel. Bem, como nós sabemos uma das ocupações centrais da Filosofia Clinica diz respeito à Ética, o cuidado com a pessoa, o estudo da vida. Como o senhor entende essa questão?

Dom Manoel Pestana - Olha, eu entendo a Filosofia Clínica como uma responsabilidade muito grande. Porque? Porque nós estamos lidando com a pessoa humana, independentemente dos valores cristãos, da imagem de Deus, de filhos de Deus, nós devemos lembrar que o homem...é ele quem constrói o universo; é ele que constrói a sociedade. O mundo será o que os homens fizerem dele e eles podem até comprometer o equilíbrio da natureza com as muitas das suas chamadas "loucuras científicas", e por isso interferir no homem como um dono de seu destino e um construtor do seu futuro é assumir realmente uma responsabilidade que só pode ser julgada diante de Deus, por isso, eu mesmo como sacerdote tinha uma angústia muito grande quando eu devia entrar no confessionário para olhar a consciência dos homens e dizer-lhes alguma coisa. Nesse sentido, a Filosofia Clínica, independentemente da minha função religiosa, é extraordinária para conhecer mais profundamente os homens. Usando inclusive todos esses valores filosóficos que constituem uma parte preciosa da nossa formação e que às vezes fica, eu diria, quase encaixotados sem uma aplicação direta e que são tão importantes. Se nós, ao invés de ficarmos na casca do homem ou no fenômeno, nós entrássemos mais profundamente nas razões existenciais poderíamos realmente ajudar o homem a se encontrar, ajudar o homem a rever a sua vida, ajudar o homem a, por exemplo, a fazer da sua existência não apenas um encontro consigo, mas uma missão que o gratificaria profundamente se conseguisse acertar.

...a Filosofia Clínica, independentemente da minha função religiosa, é extraordinária para conhecer mais profundamente os homens.”

Nesse sentido a Ética é extremamente importante, todos nós sabemos. A Ética natural... porque afinal de contas é objeto direto da Filosofia, o valor da pessoa humana. Uma Filosofia que não é personalista ela acaba transformando o homem num grão de areia e, finalmente o valor da vida. Afinal, o que é a vida? De onde viemos, para aonde vamos, o que estamos fazendo aqui. A Filosofia Clínica resolveu entrar direto nesse campo, que é o campo decisivo. Quando em Londres, em 1968, naquele famoso congresso de psiquiatria, chegou-se a uma conclusão assim...menos favorável dos resultados de todos os seus trabalhos, dizendo que afinal em grandes partes dos casos não chegavam a uma resposta satisfatória ao homem. Percebemos que é preciso aprofundar mais, descer muito mais e eu creio que a ajuda da Filosofia Clínica tentando entrar no mistério da essência, ela poderá ajudar-nos muito, inclusive àqueles que têm por missão, cuidar da própria consciência dos homens.

Wilson Barbosa - Muitos padres e freiras estudam Filosofia Clínica hoje no país. Além da Fafisma (Faculdade de Filosofia São Miguel Arcanjo- atual Faculdade Católica de Anápolis) muitas instituições religiosas têm parceria com o Instituto Packter. Há muitos diretores de seminários que são Especialistas em Filosofia Clínica. Como o Pe. Carlos, no seminário em São Carlos, o Pe. Paulo Henrique, em Brodoski, Pe. Alcides, em São Luís, e outros. Alguns religiosos participam dos órgãos diretivos máximos, como o conselho de representantes. Outros assumem como professores nos centros de formação. Na sua opinião a que se deve essa afinidade entre a Filosofia Clínica e a religiosidade?

... eu creio que é uma belíssima parceria que nós podemos encontrar (entre a Filosofia Clínica e a religiosidade).”

Dom Manoel Pestana - Bem, é bastante simples. A dimensão religiosa é uma dimensão essencial do homem e ele está sempre aberto de alguma maneira pelo transcendente. Pode ser que às vezes não descubra, mas de repente ele pode compreender ou surpreender-se vendo que sem esse apelo transcendente fica sem respostas grande parte dos seus maiores problemas, e é por isso que a Filosofia Clínica não pode prescindir absolutamente a religiosidade do homem e aqueles que também trabalham diretamente com a religião não podem prescindir de um mergulho mais profundo na natureza humana, porque do contrário não ajudam a construir o homem, mas simplesmente uma super-estrutura do homem ou qualquer coisa parecida. O essencial é mergulhar nas raízes da natureza, como dizia Santo Agostinho; que a natureza e Graça são importantes porque a Graça supõe a natureza e a natureza não pode para nós... mesmo numa dimensão puramente religiosa, a Graça sem a natureza não pode alcançar os seus objetivos mais profundos. Nesse sentido, eu creio que é uma belíssima parceria que nós podemos encontrar. Aliás, estudando alguns autores, como São Tomas, por exemplo, na Suma Teológica, percebemos como ele procurou entender a natureza humana exatamente para poder entender; mostrar às raízes humanas as suas verdades religiosas, e ao mesmo tempo pôr a serviço da natureza toda essa beleza da visão cristã. De qualquer modo, nós podemos fazer bela parceria.

Wilson Barbosa - O senhor tem freqüentado as aulas de Filosofia Clínica e está estudando diretamente com Lúcio Packter. Quais as suas considerações a respeito desse estudo? Como esse estudo pode auxiliar a humanidade em sua caminhada?

Dom Manoel Pestana - Eu creio que diante dos problemas do homem... o homem é sempre um mistério. Mas dentre os problemas do homem, que os chamados “especialistas do homemnão conseguiram resolver, e pelo contrário, parece-me que às vezes até os agravam, uma alternativa como a do professor Packter é extraordinária, ela pode encontrar um caminho que eu creio que já está dando frutos até surpreendentes; conversando com algumas pessoas que eu conheço, eles se têm mostrado realmente até surpreendidos pelas novas descobertas e nesse sentido o trabalho do professor Packter, (eu não posso julgar) mas posso pelo menos acompanhar algumas aulas que já tenho tido com ele e creio que poderá representar muito. É um caminho novo, um rumo que vai reencontrar com muitas das intuições que já temos conhecimento no passado, mas organizá-las e orientá-las, isso eu creio que será um grande progresso, não só para os estudiosos do homem, mas de um modo muito especial àqueles que fizeram da sua vida um serviço ao homem.

...uma alternativa como a do professor Packter é extraordinária, ela pode encontrar um caminho que eu creio que já está dando frutos até surpreendentes.”

Wilson Barbosa - Dom Manoel, o mundo têm crescido e se multiplicado. Vivemos em uma época de mudanças e perplexidades em algumas áreas. O que o senhor recomenda aos jovens de hoje para que se possa viver em paz e compreender com maior serenidade o mundo?

Dom Manoel Pestana - Eu li uma vez que grande parte da humanidade passa a primeira parte da vida fazendo todo o possível para que a segunda metade seja bem desgraçada (risos). É uma pena que se perca tantas vezes o sentido da responsabilidade e o sentido da seriedade da vida. A vida é um dom, um dom maravilhoso e não se pode de modo nenhum diminuir a alegria de viver, mas é necessário também pensar na responsabilidade de viver, nunca vivemos sozinhos e nós nos construímos e construímos os outros.

A vida é um dom, um dom maravilhoso e não se pode de modo nenhum diminuir a alegria de viver, mas é necessário também pensar na responsabilidade de viver.”

Aristóteles dizia que nós somos filhos dos nossos atos, aquilo que nós fazemos nos constrói ou nos destrói e eu diria que a juventude devia com toda alegria, com todo entusiasmo, em toda a sua criatividade não perder de vista a missão suprema do homem na terra e o seu objetivo final porque, afinal, nós não vivemos para esse mundo, nós vivemos para a transcendência. Se tudo acabasse na terra então, afinal, eu perguntaria: o quê que valeu a vida? É uma coisa que não se pode perder de vista o rumo, senão, nós poderíamos talvez chegar a dizer como Voltaire que sem Deus, se Deus não é o objetivo final, ou se Deus não existe... aqui já não passaria de uma piada de mau gosto. Em todo caso, nós sempre podemos fazer alguma coisa para que essa piada tenha mais sentido.

Wilson Barbosa - Falando especialmente sobre Filosofia quais autores o senhor recomenda aos jovens filósofos em formação de hoje?

Dom Manoel Pestana - Olha, é interessante. Ainda hoje estávamos conversando sobre um autor que eu creio que tem ajudado muito aos nossos filósofos, particularmente aos jovens. Foi com essa intenção que ele escreveu. Mas um Leonel Franca dá uma visão tranqüila, objetiva, de todo o pensamento humano, de toda essa angústia humana que tenta desafiar a esfinge e encontrar uma resposta para o seu desafio... por exemplo, o Reale é outro autor... Dostoievsky é um mestre sobre a natureza humana. Shakespeare é também absolutamente bom. Eu creio que também quanto mais nós entramos em contato com a natureza humana em todos os seus níveis, tanto mais nos tornamos capazes não apenas de compreender a natureza no seu grande mistério, mas até de oferecer a eles esses recursos que vêm de... toda a angústia humana que foi depois registrada nas grandes obras que estão ajudando até hoje.

Wilson Barbosa - Quais são os desafios para a humanidade hoje?

Dom Manoel Pestana - O Papa João Paulo II disse que nós vivemos a cultura da morte, a cultura do pecado. Tomemos o pecado num sentido assim, estrito, pecado é hamartia, em grego, quer dizer, uma flecha que não chega ao alvo. Todo o sentido então do pecado seria sempre um desvio, uma distorção e o mundo de hoje não percebe mais a distinção entre bem e mal. Evidentemente é preciso levar sempre em conta essa medida interior do homem que se chama consciência. É a consciência que o próprio Deus respeita. Mas por outro lado não se pode cair num relativismo, num subjetivismo absoluto que acaba por confundir bem e mal, ou então virtude e vício. Isso que transforma o mundo de hoje numa grande cilada. Seria o caso de lembrar que o vício se torna cada vez mais sedutor e a virtude cada vez mais difícil. Se nós afinal de contas, não temos muita coragem de enfrentar a natureza humana sem violentá-la porque não se chega a resultado nenhum pela violência. Deus criou o homem livre e não aceita a submissão de escravos, mas de qualquer modo, nós vivemos num mundo carente de valores, sem rumo e eu creio que essa cultura da morte em que afinal a morte vale tanto como a vida e a vida vale tanto como a morte, ou então melhor todas as coisas estão limitadas por horizontes bastante estreitos. Tudo isso eu creio que é o grande desafio de hoje. É preciso se abrir horizontes, escancarar janelas para o infinito e mostrar que nós somos muito maiores que um grão de terra.

Tudo isso eu creio que é o grande desafio de hoje. É preciso se abrir horizontes, escancarar janelas para o infinito e mostrar que nós somos muito maiores que um grão de terra.”

Wilson Barbosa - Na sua opinião a Filosofia Clínica pode se envolver em questões políticas como o quadro político que vemos hoje no Brasil, ou deve manter-se somente no âmbito dos consultórios, nos hospitais e escolas?

Dom Manoel Pestana - Veja bem, eu creio que a Filosofia Clínica como filosofia fica bem como clínica, ela deve estar a serviço de todas as angústias, perplexidades, sonhos do homem em qualquer situação. A dimensão política é uma ação tão importante que o próprio Aristóteles definiu o homem como um animal político. Nós não estamos fora do mundo ou fora da sociedade, ou melhor, nós não só participamos dela como também a construímos, na medida em que afinal nos tornamos homens melhores, mais dignos dos valores da ética e por isso não é que ela não vá interferir diretamente na política, mas ela tem que despertar ou formar, orientar a consciência, eu estou falando de orientar naquele sentido de educação que é uma coisa que não vem de fora para dentro, mas vem de dentro para fora, quer dizer que a construção do homem passe de dentro; o homem tem que ser construído com aquilo que ele é, com aquilo que ele tem, por isso é tão interessante essas normas que se dão de começar o trabalho por uma anamnese completa da história pela caminhada de um homem, porque sem isso não é possível andar muito com segurança. Eu creio que não se pode deixar de lado a dimensão política embora ela não possa ser, digamos assim, um objetivo, muito menos uma ideologia. O homem sem essa dimensão será sempre um menos homem.

Wilson Barbosa - Quais os cuidados o senhor recomenda aos Filósofos Clínicos?

Dom Manoel Pestana - Eu diria muito estudo, muita competência, muita responsabilidade. Eu até arriscaria dizer que o filósofo clínico deve ver o seu trabalho quase como um sacerdócio, com uma dedicação plena, completa, incondicionada, a sua missão fielmente é fundamental. Ajudar o homem a encontrar o seu caminho é construir um universo que vale à pena.

Wilson Barbosa - O que podemos esperar sobre o futuro da humanidade, Dom Manuel?

Dom Manoel Pestana - (risos). Eu não sou nenhum adivinho, nenhum profeta, mas eu posso dizer que o homem infelizmente aprende mais com seus erros, os seus fracassos, que com as suas vitórias, porque geralmente é difícil o homem querer aprender com a experiência dos outros, embora a gente saiba que quem desconhece a história, por exemplo, isto é, o passado, está condenado a repetir os seus erros, mas uma coisa é certa, a humanidade eu creio que ela sempre poderá encontrar um caminho.

o filósofo clínico deve ver o seu trabalho quase como um sacerdócio, com uma dedicação plena, completa, incondicionada, a sua missão fielmente é fundamental, ajudar o homem a encontrar o seu caminho é construir um universo que vale à pena.”

Hoje nós somos talvez umas das esquinas mais angustiantes da história, mas realmente nós somos a mão de Deus e de novo eu volto a Deus, o próprio Jung dizia que sem os valores religiosos não se podia resolver nenhum problema humano profundo, ao contrário de Freud.... Por isso eu creio que nós temos sempre uma perspectiva de realização, de encontro. O horizonte de alguém que crê na transcendência é sempre um horizonte iluminado pela esperança. Nós sabemos que não somos meros grãos de areia jogados no deserto. Sim, somos filhos de Deus e isso é tão importante, por isso há sempre uma solução para os problemas, nós é que não as encontramos às vezes. Repito de novo, a Filosofia Clínica veio a ser uma perspectiva positiva, eu diria até otimista, do reencontro do homem com os seus caminhos. E poderá ser feita somente por ela, nós sabemos disso, todos temos limitações, mas de qualquer maneira, eu creio que a humanidade ainda pode encontrar seu caminho. Nós já passamos por tempos tão difíceis que parecia que o mundo não se encontraria mais e de repente algumas coisas, alguns caminhos começaram a abrir-se. Eu sou otimista, claro, creio na vitória do bem e creio na misericórdia de Deus embora sofra com tragédias da terra, do mundo, dos homens. Eu não perco nunca a esperança!

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