segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Por Wilson Alves

HOMENAGEM PÓSTUMA
DOM MANOEL PESTANA FILHO
27/04/1928 A 08/01/2011

REPUBLICAÇÃO ESPECIAL


Em dezembro de 2005 o Filósofo Clínico Wilson Barbosa, então membro da Comissão Nacional de Avaliação de Estágios Clínicos, entrevistou para o site do Instituto Packter-POA-RS, Dom Manoel Pestana Filho, Bispo Emérito de Anápolis. Intelectual, poliglota e amante assíduo da leitura. Entre os idiomas que domina, está o italiano, o latim, o espanhol e o francês. Altamente fluente em inglês, sem contar com os seus conhecimentos do grego e do alemão. Em 2005 já era também um estudioso da Filosofia Clínica.
Partes da gravação que não tiveram qualidade suficiente para a transcrição (cerca de 5%) foram suprimidas.



ENTREVISTA COM V. Ex.º Rev. DOM MANOEL PESTANA FILHO
BISPO EMÉRITO DE ANÁPOLIS-GO

Wilson Barbosa - Boa tarde D. Manoel. Bem, como nós sabemos uma das ocupações centrais da Filosofia Clinica diz respeito à Ética, o cuidado com a pessoa, o estudo da vida. Como o senhor entende essa questão?

Dom Manoel Pestana - Olha, eu entendo a Filosofia Clínica como uma responsabilidade muito grande. Porque? Porque nós estamos lidando com a pessoa humana, independentemente dos valores cristãos, da imagem de Deus, de filhos de Deus, nós devemos lembrar que o homem...é ele quem constrói o universo; é ele que constrói a sociedade. O mundo será o que os homens fizerem dele e eles podem até comprometer o equilíbrio da natureza com as muitas das suas chamadas "loucuras científicas", e por isso interferir no homem como um dono de seu destino e um construtor do seu futuro é assumir realmente uma responsabilidade que só pode ser julgada diante de Deus, por isso, eu mesmo como sacerdote tinha uma angústia muito grande quando eu devia entrar no confessionário para olhar a consciência dos homens e dizer-lhes alguma coisa. Nesse sentido, a Filosofia Clínica, independentemente da minha função religiosa, é extraordinária para conhecer mais profundamente os homens. Usando inclusive todos esses valores filosóficos que constituem uma parte preciosa da nossa formação e que às vezes fica, eu diria, quase encaixotados sem uma aplicação direta e que são tão importantes. Se nós, ao invés de ficarmos na casca do homem ou no fenômeno, nós entrássemos mais profundamente nas razões existenciais poderíamos realmente ajudar o homem a se encontrar, ajudar o homem a rever a sua vida, ajudar o homem a, por exemplo, a fazer da sua existência não apenas um encontro consigo, mas uma missão que o gratificaria profundamente se conseguisse acertar.

...a Filosofia Clínica, independentemente da minha função religiosa, é extraordinária para conhecer mais profundamente os homens.”

Nesse sentido a Ética é extremamente importante, todos nós sabemos. A Ética natural... porque afinal de contas é objeto direto da Filosofia, o valor da pessoa humana. Uma Filosofia que não é personalista ela acaba transformando o homem num grão de areia e, finalmente o valor da vida. Afinal, o que é a vida? De onde viemos, para aonde vamos, o que estamos fazendo aqui. A Filosofia Clínica resolveu entrar direto nesse campo, que é o campo decisivo. Quando em Londres, em 1968, naquele famoso congresso de psiquiatria, chegou-se a uma conclusão assim...menos favorável dos resultados de todos os seus trabalhos, dizendo que afinal em grandes partes dos casos não chegavam a uma resposta satisfatória ao homem. Percebemos que é preciso aprofundar mais, descer muito mais e eu creio que a ajuda da Filosofia Clínica tentando entrar no mistério da essência, ela poderá ajudar-nos muito, inclusive àqueles que têm por missão, cuidar da própria consciência dos homens.

Wilson Barbosa - Muitos padres e freiras estudam Filosofia Clínica hoje no país. Além da Fafisma (Faculdade de Filosofia São Miguel Arcanjo- atual Faculdade Católica de Anápolis) muitas instituições religiosas têm parceria com o Instituto Packter. Há muitos diretores de seminários que são Especialistas em Filosofia Clínica. Como o Pe. Carlos, no seminário em São Carlos, o Pe. Paulo Henrique, em Brodoski, Pe. Alcides, em São Luís, e outros. Alguns religiosos participam dos órgãos diretivos máximos, como o conselho de representantes. Outros assumem como professores nos centros de formação. Na sua opinião a que se deve essa afinidade entre a Filosofia Clínica e a religiosidade?

... eu creio que é uma belíssima parceria que nós podemos encontrar (entre a Filosofia Clínica e a religiosidade).”

Dom Manoel Pestana - Bem, é bastante simples. A dimensão religiosa é uma dimensão essencial do homem e ele está sempre aberto de alguma maneira pelo transcendente. Pode ser que às vezes não descubra, mas de repente ele pode compreender ou surpreender-se vendo que sem esse apelo transcendente fica sem respostas grande parte dos seus maiores problemas, e é por isso que a Filosofia Clínica não pode prescindir absolutamente a religiosidade do homem e aqueles que também trabalham diretamente com a religião não podem prescindir de um mergulho mais profundo na natureza humana, porque do contrário não ajudam a construir o homem, mas simplesmente uma super-estrutura do homem ou qualquer coisa parecida. O essencial é mergulhar nas raízes da natureza, como dizia Santo Agostinho; que a natureza e Graça são importantes porque a Graça supõe a natureza e a natureza não pode para nós... mesmo numa dimensão puramente religiosa, a Graça sem a natureza não pode alcançar os seus objetivos mais profundos. Nesse sentido, eu creio que é uma belíssima parceria que nós podemos encontrar. Aliás, estudando alguns autores, como São Tomas, por exemplo, na Suma Teológica, percebemos como ele procurou entender a natureza humana exatamente para poder entender; mostrar às raízes humanas as suas verdades religiosas, e ao mesmo tempo pôr a serviço da natureza toda essa beleza da visão cristã. De qualquer modo, nós podemos fazer bela parceria.

Wilson Barbosa - O senhor tem freqüentado as aulas de Filosofia Clínica e está estudando diretamente com Lúcio Packter. Quais as suas considerações a respeito desse estudo? Como esse estudo pode auxiliar a humanidade em sua caminhada?

Dom Manoel Pestana - Eu creio que diante dos problemas do homem... o homem é sempre um mistério. Mas dentre os problemas do homem, que os chamados “especialistas do homemnão conseguiram resolver, e pelo contrário, parece-me que às vezes até os agravam, uma alternativa como a do professor Packter é extraordinária, ela pode encontrar um caminho que eu creio que já está dando frutos até surpreendentes; conversando com algumas pessoas que eu conheço, eles se têm mostrado realmente até surpreendidos pelas novas descobertas e nesse sentido o trabalho do professor Packter, (eu não posso julgar) mas posso pelo menos acompanhar algumas aulas que já tenho tido com ele e creio que poderá representar muito. É um caminho novo, um rumo que vai reencontrar com muitas das intuições que já temos conhecimento no passado, mas organizá-las e orientá-las, isso eu creio que será um grande progresso, não só para os estudiosos do homem, mas de um modo muito especial àqueles que fizeram da sua vida um serviço ao homem.

...uma alternativa como a do professor Packter é extraordinária, ela pode encontrar um caminho que eu creio que já está dando frutos até surpreendentes.”

Wilson Barbosa - Dom Manoel, o mundo têm crescido e se multiplicado. Vivemos em uma época de mudanças e perplexidades em algumas áreas. O que o senhor recomenda aos jovens de hoje para que se possa viver em paz e compreender com maior serenidade o mundo?

Dom Manoel Pestana - Eu li uma vez que grande parte da humanidade passa a primeira parte da vida fazendo todo o possível para que a segunda metade seja bem desgraçada (risos). É uma pena que se perca tantas vezes o sentido da responsabilidade e o sentido da seriedade da vida. A vida é um dom, um dom maravilhoso e não se pode de modo nenhum diminuir a alegria de viver, mas é necessário também pensar na responsabilidade de viver, nunca vivemos sozinhos e nós nos construímos e construímos os outros.

A vida é um dom, um dom maravilhoso e não se pode de modo nenhum diminuir a alegria de viver, mas é necessário também pensar na responsabilidade de viver.”

Aristóteles dizia que nós somos filhos dos nossos atos, aquilo que nós fazemos nos constrói ou nos destrói e eu diria que a juventude devia com toda alegria, com todo entusiasmo, em toda a sua criatividade não perder de vista a missão suprema do homem na terra e o seu objetivo final porque, afinal, nós não vivemos para esse mundo, nós vivemos para a transcendência. Se tudo acabasse na terra então, afinal, eu perguntaria: o quê que valeu a vida? É uma coisa que não se pode perder de vista o rumo, senão, nós poderíamos talvez chegar a dizer como Voltaire que sem Deus, se Deus não é o objetivo final, ou se Deus não existe... aqui já não passaria de uma piada de mau gosto. Em todo caso, nós sempre podemos fazer alguma coisa para que essa piada tenha mais sentido.

Wilson Barbosa - Falando especialmente sobre Filosofia quais autores o senhor recomenda aos jovens filósofos em formação de hoje?

Dom Manoel Pestana - Olha, é interessante. Ainda hoje estávamos conversando sobre um autor que eu creio que tem ajudado muito aos nossos filósofos, particularmente aos jovens. Foi com essa intenção que ele escreveu. Mas um Leonel Franca dá uma visão tranqüila, objetiva, de todo o pensamento humano, de toda essa angústia humana que tenta desafiar a esfinge e encontrar uma resposta para o seu desafio... por exemplo, o Reale é outro autor... Dostoievsky é um mestre sobre a natureza humana. Shakespeare é também absolutamente bom. Eu creio que também quanto mais nós entramos em contato com a natureza humana em todos os seus níveis, tanto mais nos tornamos capazes não apenas de compreender a natureza no seu grande mistério, mas até de oferecer a eles esses recursos que vêm de... toda a angústia humana que foi depois registrada nas grandes obras que estão ajudando até hoje.

Wilson Barbosa - Quais são os desafios para a humanidade hoje?

Dom Manoel Pestana - O Papa João Paulo II disse que nós vivemos a cultura da morte, a cultura do pecado. Tomemos o pecado num sentido assim, estrito, pecado é hamartia, em grego, quer dizer, uma flecha que não chega ao alvo. Todo o sentido então do pecado seria sempre um desvio, uma distorção e o mundo de hoje não percebe mais a distinção entre bem e mal. Evidentemente é preciso levar sempre em conta essa medida interior do homem que se chama consciência. É a consciência que o próprio Deus respeita. Mas por outro lado não se pode cair num relativismo, num subjetivismo absoluto que acaba por confundir bem e mal, ou então virtude e vício. Isso que transforma o mundo de hoje numa grande cilada. Seria o caso de lembrar que o vício se torna cada vez mais sedutor e a virtude cada vez mais difícil. Se nós afinal de contas, não temos muita coragem de enfrentar a natureza humana sem violentá-la porque não se chega a resultado nenhum pela violência. Deus criou o homem livre e não aceita a submissão de escravos, mas de qualquer modo, nós vivemos num mundo carente de valores, sem rumo e eu creio que essa cultura da morte em que afinal a morte vale tanto como a vida e a vida vale tanto como a morte, ou então melhor todas as coisas estão limitadas por horizontes bastante estreitos. Tudo isso eu creio que é o grande desafio de hoje. É preciso se abrir horizontes, escancarar janelas para o infinito e mostrar que nós somos muito maiores que um grão de terra.

Tudo isso eu creio que é o grande desafio de hoje. É preciso se abrir horizontes, escancarar janelas para o infinito e mostrar que nós somos muito maiores que um grão de terra.”

Wilson Barbosa - Na sua opinião a Filosofia Clínica pode se envolver em questões políticas como o quadro político que vemos hoje no Brasil, ou deve manter-se somente no âmbito dos consultórios, nos hospitais e escolas?

Dom Manoel Pestana - Veja bem, eu creio que a Filosofia Clínica como filosofia fica bem como clínica, ela deve estar a serviço de todas as angústias, perplexidades, sonhos do homem em qualquer situação. A dimensão política é uma ação tão importante que o próprio Aristóteles definiu o homem como um animal político. Nós não estamos fora do mundo ou fora da sociedade, ou melhor, nós não só participamos dela como também a construímos, na medida em que afinal nos tornamos homens melhores, mais dignos dos valores da ética e por isso não é que ela não vá interferir diretamente na política, mas ela tem que despertar ou formar, orientar a consciência, eu estou falando de orientar naquele sentido de educação que é uma coisa que não vem de fora para dentro, mas vem de dentro para fora, quer dizer que a construção do homem passe de dentro; o homem tem que ser construído com aquilo que ele é, com aquilo que ele tem, por isso é tão interessante essas normas que se dão de começar o trabalho por uma anamnese completa da história pela caminhada de um homem, porque sem isso não é possível andar muito com segurança. Eu creio que não se pode deixar de lado a dimensão política embora ela não possa ser, digamos assim, um objetivo, muito menos uma ideologia. O homem sem essa dimensão será sempre um menos homem.

Wilson Barbosa - Quais os cuidados o senhor recomenda aos Filósofos Clínicos?

Dom Manoel Pestana - Eu diria muito estudo, muita competência, muita responsabilidade. Eu até arriscaria dizer que o filósofo clínico deve ver o seu trabalho quase como um sacerdócio, com uma dedicação plena, completa, incondicionada, a sua missão fielmente é fundamental. Ajudar o homem a encontrar o seu caminho é construir um universo que vale à pena.

Wilson Barbosa - O que podemos esperar sobre o futuro da humanidade, Dom Manuel?

Dom Manoel Pestana - (risos). Eu não sou nenhum adivinho, nenhum profeta, mas eu posso dizer que o homem infelizmente aprende mais com seus erros, os seus fracassos, que com as suas vitórias, porque geralmente é difícil o homem querer aprender com a experiência dos outros, embora a gente saiba que quem desconhece a história, por exemplo, isto é, o passado, está condenado a repetir os seus erros, mas uma coisa é certa, a humanidade eu creio que ela sempre poderá encontrar um caminho.

o filósofo clínico deve ver o seu trabalho quase como um sacerdócio, com uma dedicação plena, completa, incondicionada, a sua missão fielmente é fundamental, ajudar o homem a encontrar o seu caminho é construir um universo que vale à pena.”

Hoje nós somos talvez umas das esquinas mais angustiantes da história, mas realmente nós somos a mão de Deus e de novo eu volto a Deus, o próprio Jung dizia que sem os valores religiosos não se podia resolver nenhum problema humano profundo, ao contrário de Freud.... Por isso eu creio que nós temos sempre uma perspectiva de realização, de encontro. O horizonte de alguém que crê na transcendência é sempre um horizonte iluminado pela esperança. Nós sabemos que não somos meros grãos de areia jogados no deserto. Sim, somos filhos de Deus e isso é tão importante, por isso há sempre uma solução para os problemas, nós é que não as encontramos às vezes. Repito de novo, a Filosofia Clínica veio a ser uma perspectiva positiva, eu diria até otimista, do reencontro do homem com os seus caminhos. E poderá ser feita somente por ela, nós sabemos disso, todos temos limitações, mas de qualquer maneira, eu creio que a humanidade ainda pode encontrar seu caminho. Nós já passamos por tempos tão difíceis que parecia que o mundo não se encontraria mais e de repente algumas coisas, alguns caminhos começaram a abrir-se. Eu sou otimista, claro, creio na vitória do bem e creio na misericórdia de Deus embora sofra com tragédias da terra, do mundo, dos homens. Eu não perco nunca a esperança!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Por Wilson Alves



Esse texto compõe a Introdução do TCC apresentado pelo autor à Banca de Exame de Monografias da Especialização “Tecnologias na Educação” - PUC/RJ sob orientação da Profª Clarissa Fernandes do Rêgo Barros, cuja defesa oral aconteceu em 24 e 25 de Novembro do ano em curso, no auditório da Câmara Municipal Jayme Câmara de Goiânia. 
Em tempo oportuno o trabalho será apresentado na íntegra, cujo link estará disponível nesse Blog.
O Autor.
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A RELAÇÃO INTERPESSOAL NA EAD
 
A palavra alteridade, derivada do latim ‘Alter' - o esforço de se colocar no lugar do outro, constitui o princípio, a gênese do problema que será apresentado nesse TCC, de modo que o intuito é associar o conceito de alteridade ao caráter de planejamento de formação dos professores para o uso das mídias digitais, alterando dessa forma, possíveis estados emotivos tensos, em positivos.
Partindo dessa premissa, será construída com base nos pressupostos filosófico-clínico PACKTER (1997) uma proposta de trabalho que conduza a uma melhor articulação entre o professor e o aluno, no ambiente virtual. O problema da comunicação deficiente em ambiente EAD (Educação à distância) tem consequências graves, de modo particular, a possibilidade de evasão nos cursos em função de desmotivação, medo, fuga, perda de interesse, motivos os quais  interferem nas relações afetivas entre professores e alunos (XAVIER apud MORAN, 2005).
PACKTER (1997, p.45) no contexto da sua obra deixa implícito que toda relação humana, portanto, também a virtual, sugere a necessidade de uma aproximação do outro de modo mais próximo a compreendê-lo na sua singularidade, convergindo esforços em entender a forma genuína da pessoa em representar o mundo, as coisas, inclusive, o aprendizado e compreender também que toda pessoa possui uma epistemologia inata para lidar com o novo, nesse caso específico, com o aprendizado acadêmico via educação à distância. Assim, esse trabalho procura levantar uma revisão de literatura do que há escrito sobre os limites do aprendizado acadêmico nos ambientes virtuais e propõe colaborar na discussão do tema, de forma a incentivar novos estudos e futuras descobertas.
Considerando a grande expansão de cursos na modalidade de educação à distância no Brasil, desde cursos técnico-profissionalizantes, graduação e pós-graduação, torna-se necessário que seja feito uma abordagem bibliográfica voltada à coleta de dados e estudos da relação inter-pessoal dentro da EAD (Educação à distância), tendo em vista que uma relação fria e distante entre professor e aluno, pode acentuar as possibilidades de perda do conteúdo pedagógico como fruto do desinteresse causado pela apatia que se estabelece, quando não há proximidade efetiva entre as partes.
Nem todas as pessoas sentem que há uma relação segura, humana e próxima para cumprir com os objetivos pedagógicos propostos quando o único meio de comunicação é feita nos moldes da EAD (educação à distância), pois os recursos disponíveis para a troca de informações: e-mails, fóruns, gravação de áudio, links, bate-papo, podem, para algumas pessoas, passar a ideia de não envolvimento pessoal, de distância, que vai além da geográfica, como, por exemplo, relacionando a comunicação através desses recursos a problemas relacionados a atenção do professor, a diferenças de ideais e a problemas relacionados a afetação1. Os resultados diante dessas possibilidades é de que conteúdos importantes de um curso ou de uma disciplina, podem não ser assimilados a contento devido a interseção estabelecida ser frágil. Segundo PACKTER (2007, p.56) o problema da interseção negativa, entre outras possibilidades, pode ser decorrente de problemas epistemológicos, nesse sentido, um professor que sabe conhecer o estado epistemológico do seu aluno, terá muito a contribuir para a pedagogia2. Conforme a interseção estabelecida com o professor, o aluno da educação à distância pode aprender de forma mais fácil ou mais difícil. Quando há afinidades com o seu instrutor, quando a interseção é positiva, isto é, aquela que é subjetivamente boa a ambos, tende a se tornar mais fácil o aprendizado, por isso, essa interseção pode estar ligeiramente relacionada aos dados epistemológicos da pessoa, já que pode interferir diretamente no aprendizado. Essa afinidade é construída de acordo com a singularidade de cada um, sedimentando a relação afetiva que vai sendo experienciado ao longo do tempo de convivência.
A fim de desenvolvermos essas ideias minuciosamente, no primeiro capítulo “Alteridade, emoções e a relação Professor x Aluno”, como base teórica, será usada a fenomenologia como abordagem metodológica a qual norteará a pesquisa do trabalho alicerçado em um mecanismo de investigação que assegure descobertas de novos processos de relação nos ambientes virtuais, tendo por parâmetro as obras referenciadas, coadunando, dessa forma, quiçá, na colaboração para construir-se uma relação humanista na EAD, onde o humanismo significa, nesse contexto, uma aproximação que envolva o relacionamento afetivo e emocional como atividade-meio para se alcançar um fim último: a maturação do aluno frente aos desafios contemporâneos, entre eles, a formação ética; a construção da cidadania como um valor imprescindível que deve ser implícito em todo nível educacional; uma melhor relação no processo ensino x aprendizagem.
No segundo capítulo “Fortalecendo a relação professor x aluno no ambiente virtual”, o exercício da epistemologia na questão do aprendizado, a ênfase será sobre o modo como se deve respeitar o outro como ela de fato é, reafirmando a idéia contida no primeiro capítulo - a alteridade como um mecanismo para sedimentar a base do respeito ao próximo e, por consequência, alterando significativamente os dados epistemológicos da pessoa e interferindo na forma genuína de aprendizado do estudante da educação à distância, refletindo também, como já mencionado, na relação entre o professor e o aluno. Por fim, o texto voltar-se-á as ideias iniciais apresentadas no capítulo anterior, posicionando sobre as conclusões obtidas em torno das ideias principais, a saber, se as mesmas alteram para melhor os resultados da vivência do aluno no ambiente colaborativo de aprendizagem, demonstrada sob as bases de uma relação de respeito, ética e sensibilidade, chegando a um parecer final sobre as diferenças iminentes entre ensino presencial e ensino a distância, essa última, confirmando o seu caráter emancipatório e, posto em prática a visão humanista consagrada nesse TCC e articulada direta e indiretamente pelos autores de referência, aventar a possibilidade de instaurar uma comunicação bidirecional que conduza o processo ensino x aprendizagem a um dinamismo educacional atento as expectativas do país que se encontra em franco desenvolvimento.

Prof. Wilson Barbosa

- Filósofo Clínico 
- Especialista em Tecnologias na Educação

1 Afetação: ato ou efeito de afetar, fingimento, falta de naturalidade, presunção. Fonte: FERREIRA, Aurélio B. de Hollanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. 1838 p.
2 Epistemologia ou teoria do conhecimento (do grego "episteme" - ciência, conhecimento; "logos" - discurso), é um ramo da filosofia que trata dos problemas filosóficos relacionados à crença e ao conhecimento.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Por Wilson Alves, Especialista em Consultoria Acadêmica e Professor Formador no NTE-Anápolis-GO


Internet é lugar de Autoria ou Plágio?

Antes mesmo de adentrarmos na dialéctica de discussão sobre o plágio e a produção de autoria, publicada aos milhares na rede mundial, convém pensar o processo subjacente à primeira, as quais os originais estão postados em um ambiente de interatividade cuja performance oferece suporte de versatilidade (publicação de textos, imagens, sons, gráficos, etc.) que por sua vez, vem sendo largamente utilizado no início do século XXI, nunca antes visto na história, sendo que o mais próximo que havia a essa versatilidade eram os livros e as enciclopédias impressas que, por natureza, não permitiam a participação contígua do usuário, ficando este como mero receptador das informações com ou sem a semântica necessária às suas necessidades. Antes mesmo de aventurarmos em render louvores ao deus da revolução tecnológica, a internet, convém suscitar uma crítica contundente ao que subjaz a “liberdade” de criação na rede, ou ainda da facilidade de plágio do que ali se encontra. Dificilmente no âmbito da navegação, o internauta pára para questionar sob os interesses econômicos que há como pano de fundo atrás do universo de softwares que são oferecidos como mecanismos de inclusão e estratégia para que a “liberdade universal” não seja tolhida mesmo às sociedades menos prestigiadas. Esse é um primeiro ponto.
A ambigüidade que encontramos na internet, ao mesmo tempo revolucionária por oferecer um novo status para a produção textual, gráfico, visual, permitindo às pessoas serem autoras dos seus projetos, constitui, paralelamente a essa revolução, um mecanismo de contraproposta à uma pedagogia escolar e de vida progenitora do incrível poder de emancipar o indivíduo, porque para a grande maioria dos usuários, de modo especial para a maturação das crianças, o desenvolvimento pedagógico fica a cargo de uma pedagogia oculta (SILVA, 1992, p. 125) a serviço do desenvolvimento político-tecnológico, que atendendo aos interesses capitalistas surrupia do cidadão a criticidade expontânea redundando a pedagogia à técnica, como se o desenvolvimento estritamente técnico fosse o motriz do crescimento econômico do país, politicamente falando. A questão fundamental é saber separar o status de supremacia das tecnologias das necessidades emergentes do mundo real. É necessário perguntar a que serve a pedagogia moderna. Não nos espanta saber que atrás do mercado globalizado há uma super-estrutura dominante, regido e manipulado pelo neoliberalismo, segregaria das sociedades pobres e miseráveis. Ademais, para alimentar os interesses atrozes desse movimento demoníaco, é necessário que haja o sacrifício de inocentes a seu serviço. Na China, milhares de adolescentes e jovens adultos trabalham 15 horas por dia a 65 centavos por hora, proibidos de falar ou ouvir música, em condições terríveis nas fábricas, onde fabricam hardware da Microsoft que é exportado para os Estados Unidos, Europa e Japão. Assim relata o National Labor Committee, que lançou ao grande publico três anos de entrevistas e fotografias dentro de fabricas da China.1
Voltando a atenção para a questão do plágio e para a produção de autoria, partimos primeiramente do princípio da máxima de Heráclito “ninguém pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”. Dessa máxima deriva pensar os limites das habilidades e competências implícitas na criação, reprodução e inserção/adaptação de idéias na Web. Por mais absurdo que possa parecer, quando a pessoa vai à rede, plagia e apresenta uma pseuda produção, entretanto, passando-a por genuína e “acabada”, apesar da fraude, houve na sua gênese uma construção real. Real no que diz respeito ao modo próprio de representação da sua Estrutura de Pensamento2. Há ai a semântica das ausências, das reticências, dos silêncios que exigem interpretação, dentro da regra que toda interpretação será, por sua vez, reinterpretada.
Autoria precisa ser visualizada em sua excelência e fragilidade: é excelente, no horizonte da vida como reconstrução a partir do sujeito que forja a autonomia possível e conduz seu destino relativamente; é frágil, nos horizontes das realidades descartáveis, incompletas, passageiras, pois toda autoria é feita a partir de outras, um remix. (Pedro Demo. Habilidades del siglo XXI, pág.08).
A genuinidade encontra-se exatamente no linear entre a cópia e a criação, entre o desejo e a farsa, entre o imagético e o criativo. Isso não implica afiançar a prática do plágio, mas dar luz à questão em sua vertente epistemológica, à sagacidade intencional que se bem entendido pode contribuir no processo autogênico da dialéctica dos contrários. Uma pedagogia que busca equacionar um substrato puro e significativo como referência para o desenvolvimento da autoria democrática que leve ao verdadeiro sentido de conquista da cidadania, precisa compreender os significantes e significados que permeiam as bases econômicas, psicológicas, tecnológicas e políticas de seu tempo. Nesse sentido, tópicos estruturais que alicerçam a sociologia de uma época passa por diversas etapas e se equilibra sob muitas variantes. Isso quer dizer que o que a determina hoje, como por exemplo,  valores, crenças, suas características deterministas, podem não o ser amanhã. As variáveis periféricas, frágeis, antagônicas e invisíveis, mas reais, podem juntas convergir em força suficiente para determinar as direções das ações, inclusive de mercado – o que faz crescer vertiginosamente o interesse capitalista a partir da disseminação das tecnologias, inclusive através de tecnologias na pedagogia.
Esses são princípios filosóficos que precisam ser refletidos anteriormente ao simplismo presente na definição meramente gramatical de plágio. A primazia da autoria, publicação e realização na rede se constitui exatamente na ambiguidade que pode ser exaurida da reflexão sob a máxima que norteou parte da dialéctica presente nesse texto “ninguém pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”. Então, até que ponto pode se falar em autoria genuína por excelência? 
 
Prof. Wilson Barbosa

- Filósofo Clínico 
- Especialista em Tecnologias na Educação
1 Fonte da informação e foto: http://videogamebrasileiro.blogspot.com/2010/04/adolescentes-chineses-trabalham-como.html
2 Estrutura de Pensamento: tudo aquilo que está na pessoa; organização dos elementos que compõem e sustentam os modos de ser de uma pessoa (www.filosofiaclinica.com.br)
Nota: Este texto responde proposta de atividade da disciplina Projeto Pedagógico Utilizando Ferramentas de Autoria, Unidade 1 – Ferramentas de autoria: definição, particularidades e vantagens. 
Turma GO-01- Especialização: Tecnologias na Educaçã0- PUC-Rio,
2009-2010.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Por Wilson Alves

E A SUBJETIVIDADE DO ALUNO-PESSOA?

Se o leitor visitar os artigos anteriores, especialmente os que foram publicados no ano de 2008 e 2009 verá implícita uma ênfase dada a visão prospectiva na educação; a formação contínua do professor; a valorização da educação diagnóstica e formativa, entre outros. Com efeito, esses tópicos vêm sendo valorizados nesse Blog e na maioria dos textos escritos por especialistas que “pensam” a educação brasileira, inclusive com anuência da Legislação que foca essas premissas a partir da redemocratização do ensino proposto na LDB. A questão que pretendo abordar vai paradoxalmente, a primeira vista, na contramão do que vem sendo escrito nos últimos meses. Isso acontece porque o objetivo desse artigo é voltar a atenção à subjetividade da pessoa, à inércia equilibrada que faz bem ao espírito, ao platonismo no seu mais legítimo grau, quando trata da contemplação do belo, do bem, e da verdade. Do ócio hermeneuticamente trabalhado nos textos platônicos.
Na atualidade a palavra da vez é virtual – caminho que apresenta à educação brasileira um sinal, uma luz ao fim do túnel com propósito de recuperar séculos de atraso educacional e intelectual por meio da EAD. A bem da verdade, a presunção em formarmos indivíduos que atendam a demanda de um mercado globalizado precisa ser bem entendida para que não se coadune com objetivos puros e simplesmente maniqueístas do capitalismo implantado pelo neoliberalismo. Homens e mulheres que aspiram a uma sociedade igualitária, socialmente generosa e autônoma (e não autômata), mulheres e homens que vivam uma liberdade responsável, precisam entender que para a Gestão dessas ações de modo a serem eficazes e eficientes, há de ser provida por meio de um federalismo que assuma a responsabilidade sob uma formação profissional sustentável. Ademais, a educação que deve ser um todo integrado, há de cuidar em promover competências de decisão, a saber, que cuide de integrar o homem em seus aspectos físico, psíquico e social, e dessa forma, conjugar esforços para que a produção no trabalho contemple também uma visão planetária, a qual é possível somente através de uma visão holística de mundo, bem ao contrário da pseudo hegemonia social pregada deliberadamente pelo neoliberalismo que usa a via da economia como um de seus pressupostos.
O que pretendo acentuar são os riscos que há na velocidade extravagante que pode ser caracterizado no verbo abundante do particípio absorver. Entendendo por definição, algo que venho insistindo em vários dos meus artigos: a ausência da dialética e da alteridade no ato de receber pronto as informações e conhecimentos virtuais hipermidiados de maneira irrefletida, alienadora e segregária, elementos que estão no plano de fundo de uma política internacional massificadora que busca a dominação mundial através das políticas de educação. Todo esse processo contribui a que naturalmente construa-se e sentencia-se a nós cidadãos ética e valores virtuais, apenas. O nosso trabalho pedagógico na educação a distância não encerra apenas em escrever nos fóruns; em biblioteca-material do aluno ou no espaço reservado ao material do professor pequenos textos que atendam a meia dúzia de tutores ou mesmo a alguns professores conteudistas. Nosso dever ético é denunciar toda e qualquer possibilidade, por mínima que seja, em construir super-homens e super-mulheres tecnológicos, mas emocionalmente infelizes. A “ruptura” entre o lápis e o computador requer mais que simples treinamento em plataformas. Implica em criar indivíduos responsáveis mutuamente pelo desenvolvimento constituído sob as bases da equidade em direitos humanos bem como formar mentes pensantes e conjuntamente responsáveis pelo planeta; implica em tecer caminhos pedagógicos que contemplem a simplicidade e a tolerância no conviver com as diferenças. Fazer compreender quanto as diferenças, que elas não residem apenas nas pessoas portadoras de necessidades especiais, mas residem em mim e em você que tem manias e criamos outras novas. O que devemos combater com veemência é o risco de sermos íntimos com uma pessoa bem do nosso lado (virtualmente falando) logo ali, do outro lado do continente, sem se dar conta da realidade local onde a sua família, escola e amigos estão inseridos.
Observe a aparente contradição. O trabalho do autor que escreve esse artigo é exatamente trabalhar com a EAD, o que leva a fácil e rápida ideia de contra senso. Mas o suposto contra senso não existe se considerada a dimensão total do que discutimos – o verdadeiro sentido de formação integrada do indivíduo.
Nesse momento em que as merecidas férias de julho se aproxima, talvez seja um momento precioso para refletirmos o TÍTULO I : Da Educação, redigido na Lei 9.394 de 1996, quando diz:


Art. 1º. A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.

Não farei maiores comentários a respeito do Artigo 1º da LDB, apenas deixarei registrado literalmente para que você estabeleça reflexões associando-o às dimensões da articulação possíveis com o que se discute a respeito de uma educação que fomenta as discussões contemporâneas: A aproximação da teoria com a prática.
Uma férias filosóficas para você.

Prof. Wilson Barbosa 


- Filósofo Clínico 
- Especialista em Tecnologias na Educação

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Por Wilson Alves

2011 A 2020
PNE – PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO

E o Novo Olhar Sobre as Ações do Professor

Por Wilson Alves, Filósofo Clínico; Especialista em Tecnologias na Educação e Professor Formador do NTE-Anápolis.



Ao lançarmos os olhos sob a trajetória profissional do educador, seja ele legalmente investido pelo Estado, seja atuando na educação formal do setor privado, ou ainda, investido em tarefas da educação informal, apreciado os caminhos percorridos ao longo da sua carreira e refletindo sobre a sua responsabilidade de acompanhamento técnico, psicosocial, psicopedagógico e humanitário nas várias dimensões da vida do aluno, e ainda, observadas as condições mínimas com as quais este dispõe para prestar acompanhamento em direção aos pontos cegos da alma, maximiza a necessidade de fomentarmos ponderações acerca dos desdobramentos decorrentes desse processo de formação que, invariavelmente, nos instiga a profundas reflexões filosóficas ainda não exploradas em nossos artigos. Devido a objetivos e a própria natureza das ações pedagógicas inerentes ao ato de ser professor, tais ações se refletem sob um aspecto pouco discutido no meio acadêmico: o conceito de doença x cura sob a ótica da dialética, da maiêutica, da lógica aristotélica.
Caracterizado o problema, requer que elaboremos quase uma exegese sob esse fato que, em via de regra, gera consequências graves a inobservância da profilaxia existente em potencial, a qual deve ser adotada de forma transversalizada no contexto da sala de aula a fim de evitar problemas dos quais afetam gravemente a comunidade escolar e a comunidade em geral. Consoante à questão saúde-doença e, de modo particular os vivenciados na escola, encontramos manifestações sensoriais conhecidas por bowling, bulimia, anorexia, derivações das histerias, vários desdobramentos da depressão, síndromes das mais variadas.
Se partirmos da premissa que doente é todo aquele que precisa de cura; se entendermos que aquilo que não faz bem à pessoa, naturalmente encontra o caminho oposto, isto é, faz mal; se considerarmos que a partir do momento em que um sorriso sincero, um abraço afetuoso, uma compreensão no momento do erro, pode fazer com que a pessoa veja a vida diferente, fica evidente o conceito de tratamento e a correspondência que existe entre educador e médico da alma, devidamente contextualizado, é claro. Entendendo melhor os fatos, é necessário saber que conteúdos invisíveis que podem afligir a alma humana são vivenciados no quotidiano do professor. Sua atividade o encaminha a esse prisma de identificação. Assim sendo, o que um professor faz? Prescreve remédios! Isso mesmo, prescreve remédios. Porém, um remédio não farmaco-químico ou homeopático, mas remédio para os paradoxos existenciais da pessoa. Propriedade de medicação, tem muito a ver com situação. Nessa dimensão, com um dedicado acompanhamento da historicidade do aluno, enraizado os principais fatos que alicerçaram a sua historicidade, palavras podem se tornar um fármaco muito poderoso. Compreendida a adequação, isso tem profundas implicações na saúde do ser humano. Algumas pessoas, usam prosac para cimentar problemas na vida, ou ao menos tentam. Para outras pessoas, o caminho que buscam para lidar com a situação que lhes causam dor, direciona às drogas; outros, convencidos de estarem buscando um bem para si, expurgam do organismo todo alimento ingerido. Ainda há aqueles que tomam a depressão quase como uma medida sanitária para lidar com aquilo que no seu entendimento é ainda maior do que a própria depressão, entendida a depressão do ponto de vista da acepção médica. E o fazem por razões que nem sempre são facilmente compreendidas nem mesmo pelo profissional preparado para lidar com as quimeras existenciais. Mas algo é certo: primeiro, devemos entender que essa pessoa está dando o melhor do que dispõe para se ver livre de algo que a incomoda. Em segundo lugar, compreender que tais ações podem simplesmente estar mascarando algo mais complexo ainda, a qual, sozinha, sem o acompanhamento de algum artífice como suporte, não conseguiria. Na atualidade o problema bowling tem alcançado patamares assustadores nas escolas de todo o país, lamentavelmente diante de frageis esforços acadêmicos no que tange às discussões entre pesquisadores no intuito de encontrar mecanismos para mudar esse quadro. É necessário um esforço conjunto, insisto.
Nesse contexto, a escola pode amplificar significativamente esses números ou reduzir o alarmante crescimento da violência na escola, dependendo das ações corretas ou erradas que ela irá tomar. Seria irresponsável abordar na teoria desse artigo a hipótese de que a responsabilidade terapêutica sob essas situações que sitiam a psique do ser humano devam convergir ao professor. Profissionais adequados, terapeutas em geral, são indicados. Entretanto o foco aqui é outro. É entender os limites naturais que naturalmente se encontra no momento da interseção entre o professor, o aluno e o meio escolar em si, e o quanto as inferências pedagógicas podem ou não provocar alterações nos casos apresentados. De partida, a fala, o acompanhamento proximodal, a interatividade - objetos diretos com os quais o educador lida, são instrumentos poderosos. Não negligenciamos os fatos a ponto de tomar esses objetos de trabalho do professor por uma espécie de panaceia como mecanismo de solução para os problemas que se apresentam nas manifestações do educando, inclusive manifestações orgânicas como a depressão e a ansiedade. Necessariamente haverá situações que é imprescindível a indicação médica no sentido literal do termo, mas precisamos verbalizar que o exercício da alteridade comummente experenciado na escola, em muitas situações, pode ser o princípio do processo de reconstrução de valores, perspectivas, comportamento, vezes com expressivos crescimento e sucessos, e vezes com insucessos notórios. No trabalho de acompanhamento do professor junto aos alunos que apresentam eventuais distúrbios cujo processo é via somatização, independente de que esse aluno esteja sob acompanhamento especializado deve haver momentos de alternância na relação pedagógica oscilando entre uma relação de firmeza e serenidade; momentos de admoestação e momentos de partilha. A “fórmula” pede reflexão, fóruns, discussão e muito discernimento. A época pede essa discussão quando os princípios educativos vêm sendo rediscutidos incansavelmente pelos arredores do mundo, inclusive no Brasil o qual nesse ano em que se discute e se redefine os rumos da educação para os próximos 10 anos, fato que exige ativa participação de toda a sociedade, incluindo a família, agentes educacionais e sociais, daí o tema do artigo. A participação da sociedade e da família nessas discussões é fundamental, por isso a situação exige que discutamos também essas questões, sugere que nos preparemos para reivindicar políticas públicas que mantenham um compromisso com uma educação de qualidade. Na mesma direção, compreender o papel e limites daquele que educa ajuda a compreender os objetivos, soluções e possíveis problemas que enfrentaremos adiante, quando o novo formato de educação pressupõe uma proximidade não cartesiana. Na educação contemporânea sujeito x objeto caminham juntos, pautada em uma relação de reciprocidade e respeito.
Afinal, quais os princípios primeiros do ato de educar. Ensinar a ler e escrever, ou ajudar o aluno a tornar-se e desenvolver-se enquanto cidadão ativo no mundo onde está inserido. A questão é profunda, ler e escrever são coadjuvantes de se tornar cidadão, ou o contrário?
À guisa de uma especulação essencialmente abstrata, a analogia entre médico e professor transcende a terminologia da palavra. Ao considerarmos uma hipotética situação elucida com mais clareza as proposições: Uma mulher fragilizada e com baixa auto estima, estimulada por um quase inconsciente desejo de viver, procura por um salão de beleza para os cuidados do corpo. Ao final do dia, após receber os serviços daqueles profissionais, vai para casa feliz, contrário a quando chegou, com a imunidade do seu organismo a níveis intoleráveis (acrescentando uma dose de exagero). Enfim, os profissionais cuidaram ou não da sua saúde, se considerado que por meio do trato da beleza aconteceu uma enorme descarga de endorfina levando-a ao prazer e ao bem estar? A analogia aqui é a mesma quando da atuação do professor imbuído no seu trabalho de ajudar a redimensionar os caminhos existenciais do seu aluno. Para entendermos as reais dimensões do que expomos, é fundamental um estudo sobre as complexidades do pensamento filosófico e científico vislumbradas pela corrente do pensamento intelectual predominante nos nossos dias. Fica assim recomendado.
Bem mais que o livro, bem mais que a técnica, bem mais que o saber instrumental, é a capacidade existente na articulação vertiginosa como fruto da comunicação entre as pessoas. Alterar os circuitos do organismo humano nem sempre requer pílulas dos laboratórios, mas princípios de verdade e referências axiológicas construídas sob laços de confiança e de amizade, de mistérios que se encontram alojados em uma relação síncrona com a qual nos deparamos diariamente com os nossos alunos, e na outra margem, com nós mesmos; com o quanto é preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certeza - como bem poetizou Edgar Morin, ao tratar dos Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro; bem como assim, diante de toda inquietude que acomete toda e qualquer relação na vida e na sala de aula.


Prof. Wilson Barbosa 


- Filósofo Clínico 
- Especialista em Tecnologias na Educação



quarta-feira, 7 de abril de 2010

Por Wilson Alves

O artigo a seguir é uma resenha construída sob a catacrese “A escola do Bairro Cinza”, texto ilustrativo da disciplina Design Didático do Curso de Especialização em Tecnologias na Educação ministrado pela PUC/RJ.

UMA CONSCIENTIZAÇÃO INTELECTIVA DE UM PROBLEMA IMPLÍCITO PARA A HIPOTÉTICA ESCOLA CINZA

1ª IDÉIA: Uma Abordagem Geral e Apresentação do Problema
As idéias apresentadas nesse artigo, perpassam sob a ótica de estudos de Jean Piaget, um dos maiores representantes moderno no que se refere à psicologia voltada também a educação.
Apesar de todo o brilhantismo do trabalho de Piaget, convém lembrar que após os anos 80 os estudos em cognição, matéria em que Piaget debruçou-se, continuaram. São inúmeros os estudiosos que têm desenvolvido trabalhos acerca do desenvolvimento cognitivo da criança. Em Piaget, temos um marco fundamental para a história do desenvolvimento da inteligência. Com o seu trabalho, é instituída uma visão diferente de homem. O homem não é mais “fruto do meio”, mas um desdobramento contínuo de funções inatas e adquiridas que o compõe. Nessa linha de raciocínio, o desenvolvimento do intelecto passa por uma Lógica Progressiva – que sugere, por consequência, uma construção contígua. Os elementos constitutivos para essa progressão estariam calcados, portanto, na Lógica, na Geometria e no Aspecto Dinâmico de todo o processo do conhecimento. Os resultados dessas associações é que a criança, diante dessas ações, constrói um conhecimento autônomo, o que, obviamente é louvável do ponto de vista da educação, especialmente na visão da educação contemporânea. Nesse sentido, o conhecimento é uma tomada de consciência do sujeito-agente mediante o objeto, e mediante os signos que representam esse objeto.
É pertinente abordar uma situação-problema dentro da primeira idéia – Abordagem Geral. A Pedagogia Tradicional, num sistema político-pedagógico, de bases massificadora e ideais capitalistas, previam mão de obra barata e inculta para o desenvolvimento da indústria. Essa pedagogia disseminou no Brasil uma educação elitista e segregaria, o que é exaustivamente divulgado e já conhecido pelos educadores de hoje. Os prejuízos advindo desse período histórico, especificamente no problema da aprendizagem, é o caráter eminentemente reprodutivista que essa educação disseminou. Com os estudos de Piaget, parte desse problema teve uma abordagem e um enfrentamento novo, quando de uma nova perspectiva de homem (autônomo) não mais vendo-o como produto do meio e re-projetando-o a uma nova visão de mundo . Com isso, para a formação da criança seria maior a liberdade em desfrutar a curiosidade inata, explorando, dessa forma, o máximo da sua criatividade, da invencionice e, sobretudo, conforme atestava o próprio Piaget, da Lógica Progressiva no aprendizado, pois, fazer é compreender. Na criança, é comum que hajam desconstruções, haja vista as grandes possibilidades de Regressões – exigindo contínua reflexão e reconstrução – mecanismo pelo qual a criatividade é vivenciada na prática.
Para fins do nosso estudo, a hipotética escola Cinza, é um lugar apático e triste. Uma escola sem luz, sem sol, sem um processo pedagógico que eleve a auto estima da criança; sem uma pedagogia que não emancipa a pessoa humana. Se olharmos essa escola sob a perspectiva piagetiana, ela ainda não se encontra totalmente sob a “luz do sol”, mas há progressos, pois, já vislumbra à distância a “aurora do amanhecer” que possibilita tirá-la do total obscurantismo, tornando-a, assim, mais transparente, pedagogicamente falando, portanto, com melhores resultados. Na fábula a fadiga existencial que envolve a Escola Cinza sem vida e sem cor, tem por motivo subjacente à essa situação, professores que não mantêm um processo multi e interdisciplinar, então, não existe a capacidade de se construir coletivamente o conhecimento, dado a pouca significação aos conteúdos trabalhados, fragmentando o saber em disciplinas distintas entre si. Mas, reflitamos, por que de acordo com o esse texto, essa escola ainda não ganharia totalmente a luz do sol sob as bases da teoria piagetiana, se afirmamos ser ele um dos maiores expoentes na educação? Isso remete-nos à segunda idéia.
2ª IDÉIA: O Sócio-Construtivismo e a Subjetividade da Criança: Primeira Necessidade da Escola Cinza
Dado os devidos créditos aos estudos do mestre, é constatado que a produção do conhecimento na criança, embora tende a tornar-se autônoma na perspectiva de Piaget, não oferece suporte para uma pedagogia híbrida (na época, o socio-construtivismo não era uma pedagogia em vigor) – pois a construção autônoma da criança passava pelo crivo da Lógica, do Exato e do Aspecto Dinâmico da Ação, porém, sem espaço para a interatividade, para a troca de emoções, para a construção conjunta, para a fruição horizontal do aprendizado, entendendo-se:


Professor→Aluno; Aluno→Professor; Aluno< >Aluno
Para explicar essa ausência de tensão provocada pela razão prática, Piaget ensina a dialética dos significantes e dos significados. Sob a força da impressão dos signos é formano a afetação e a representação de mundo da e na criança.
Na hipotética Escola Cinza a harmonia provocada pelo Sócio-Construtivismo ampliaria substancialmente as capacidades cognitivas do aluno. Na interseção com o outro, na afirmação da alteridade manifesta-se a Lógica da Identidade. Sem essa característica anuvia-se o que se vê didaticamente pela frente na conjuntura de qualquer escola e estreita-se as possibilidades de construção formativa, princípios éticos e conceitos de cidadania – previstos como Direitos da criança na Carta Magna brasileira (Constituição Federal de 1988) e na Lei Federal 9394/1996 (LDB), que regulamenta a Educação Nacional.
Na apresentação do conteúdo que inspirou a criação desse texto, há uma espécie de questionário sugestivo. Nele, pergunta-se o que sentiríamos ao ser cerceada a nossa liberdade. Oferece ainda algumas opções de respostas. São perguntas indutivas, mas ainda que não o fossem, bastaria pouca, pouquíssima reflexão, para se chegar a mesma resposta indutivamente proposta.
As idéias que defendemos não constituem nenhuma novidade. Vivemos um momento da história educacional brasileira onde conceitos como “Desenvolver Habilidades”; “Trabalho em Equipe”; “Educação Formativa” tornaram-se presentes no circuito dos debates nacionais e internacionais de educação. O que é inusitado, é que grande parte dos educadores que defendem esses ideais, ao irem à prática na sala de aula, paradoxalmente, vão contra aquilo que proclamam e defendem na teoria. As aulas continuam as mesmas, recaindo sob a epígrafe de um currículo oculto, o saber superior e ditador do professor que “tudo sabe” e do outro lado o aluno que é mero recipiente do saber, um depósito, como bem explica Paulo Freire; um instrumento impensante e nada mais, um ponto enigmático sem autonomia que, por excelência e essência, tem em seu íntimo questionamentos, experiências oriundas do meio social, da vida- propriamente dito, mas que não as exteriorizam em sala de aula, e se as exteriorizam não provocam efeitos transformadores, confirmando, lamentavelmente, a não alteridade no processo educativo. O ponto sensível da questão é a instabilidade evidenciada na relação professor-aluno; a fragilidade emocional de certos educadores quando se vêem plasmados diante de uma utópica autoridade. Um gesso existencial, produto que é fruto da Educação Tradicional, altamente hierarquizada.
3ª IDÉIA: Transformação da Escola Cinza: As TIC e a Interseção Contígua entre Escola, Professores, Técnico-Administrativo e Comunidade.
Cônscios de uma educação que verdadeiramente transforma a realidade sob a qual a escola se encontra, estudos pormenorizados no mundo inteiro grita a urgência de se estabelecer uma política de educação emancipatória. Para que perpetue essa escola libertadora, a premissa primeira é conhecer o indivíduo na sua singularidade, respeitando seus limites e descobertas próprias. Um exemplo é a transversalidade que é uma exigência das Diretrizes da Educação para o Ensino Médio que molda o intento no qual temáticas como Meio Ambiente, Sexualidade, Pluralidade Cultural, Cidadania, Ética, Saúde, Trabalho e Consumo, sejam tratados e cuidados por toda a equipe do professorado e não pela Biologia ou pela Educação Religiosa ou pela Filosofia. Seguindo ainda no mesmo exemplo "trabalhar a educação sexual" (poderia ainda ser qualquer outra temática) perpassa uma conjuntura completa no que se refere ao trato da questão, significando com isso, que o aluno precisa conhecer o seu corpo, o movimento biológico da ebulição dos hormônios comum à adolescência e como há, devido a essa transformação, afetação nas suas emoções, culminando como objetivo , uma vivência da sexualidade com responsabilidade.
Ser livre do ponto de vista da educação sexual prevê responsabilidade sob atos e ações. Nesse aspecto, compete aos professores trabalhar o assunto de forma inter na escola. Esse tema, que foi apenas um exemplo, não compete à responsabilidade de um único professor, mas indubitavelmente a uma assessoria composta de todos os professores, inclusive, com a participação da família.
Esse modelo de responsabilidade educacional seria uma primeira proposta para qualquer Escola Cinza, bem como o é na prática para muitas Escolas Roxas, localizadas na nossa cidade, na quadra vizinha à nossa.
Quando anunciamos as TIC como medida profilática e potencialmente libertadora no sentido de instrumento para uma educação interacionista e socializante, referimos ao ato de que as tecnologias constituem um dos meios pelos quais se expressa e legitima as perspectivas apresentadas na primeira ideia desenvolvida nesse texto, e bem assim, na segunda ideia onde também elencamos os problemas. E por que as Tecnologias, de modo particular os LI (Laboratório de Informática) possuem essa característica? - Porque as infinitas propostas pedagógicas transitam de modo geral, por meio de situações e contextos hipermidianos; por possuir a possibilidade de construção educacional colaborativa em seus vários níveis de mecanismos virtuais de aprendizagens (Fóruns, Blogs, Orkut, entre outros); Porque uma estrutura pedagógica pautada no modelo de hipermídia, desconstrói eventual figura autocrática do educador, dando lugar a um cenário amiúde de professor mediador, aquele que norteia o desenvolvimento do aluno, oferecendo-lhe margem por onde convém trafegar. Antes de finalizarmos, há um acréscimo que importa comentar. Nessa nova perspectiva de pedagogia caracterizada pela inserção das TIC, se bem refletido, há consonância com as descobertas de Piaget ao estabelecer uma política onde a criatividade e a autonomia do aluno, ainda que por meio de mecanismos inconscientes da ação, eleva-o além da simples representação dos signos e dos aspectos encontrados no Construtivismo. Antes, o insere no gigantesco universo sócio-construtivista vygotskyano, onde todo aprendizado é necessariamente mediado, superando nesse ponto o previsto por Piaget.
A hipermídia tramita por meio de situações e descobertas intelectivas não lineares, assíncronas, e não necessariamente hierarquizada, promovendo a abolição do autoritarismo insano. Abre, portanto, oportunidade ao diálogo e sobre tudo, à Expressividade – que bem traduzido significa o quanto de mim vai em direção ao outro, no momento da comunicação” e não restringe apenas na semiótica, no seu sentido estrito, sendo “o canal de expressão do sujeito no momento da comunicação”. Por tudo isso, acreditamos que a influência das TIC na educação a qual vislumbramos nos dias atuais, é a ponta do iceberg da nova educação, da qual somos, enquanto sujeitos de uma geração, os primeiros protagonistas. A geração da pedagogia compartilhada.

Wilson Barbosa


- Filósofo Clínico 
- Especialista em Tecnologias na Educação




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